Olá,

O Sábado de Aleluia sempre foi para mim um dia de espera silenciosa. Aquele momento entre a dor da Sexta-Feira Santa e a alegria da Ressurreição no domingo.

É um dia de menos barulho.

Por isso, neste sábado, trago uma história que une fé e tecnologia de um jeito que me surpreendeu de verdade: a Igreja, através da sua biblioteca mais sagrada, experimentando a blockchain para guardar e compartilhar com o mundo o que de mais precioso ela preservou por séculos.

A Biblioteca Apostólica do Vaticano guarda manuscritos com mais de 700 anos.

São textos escritos à mão, em pergaminho, que sobreviveram a guerras, incêndios e séculos de umidade — ao todo, são 180 mil manuscritos, 1,6 milhão de livros impressos e 300 mil moedas e medalhas históricas. Grande parte desse material nunca foi vista por quem não é pesquisador credenciado, fisicamente em Roma.

Em 2014, a Biblioteca começou uma parceria com a empresa japonesa de tecnologia NTT DATA para mudar isso. A ideia era digitalizar o acervo usando uma ferramenta chamada AMLAD, pense nela como um sistema de escaneamento e organização muito avançado, que fotografa manuscritos em altíssima resolução, cria modelos em 3D e organiza tudo com informações detalhadas para facilitar a busca.

Hoje, parte desse acervo já está disponível gratuitamente para qualquer pessoa no mundo pelo DigiVatLib, o portal digital oficial da Biblioteca. Vale muito a pena dar uma olhada.

O que é o Vatican Library Web3 Support Project

Em fevereiro de 2023, a parceria deu um passo além.

A NTT DATA e a Biblioteca do Vaticano lançaram o Vatican Library Web3 Support Project — um projeto que ainda está em fase piloto, testando se dá para usar a tecnologia blockchain para criar uma comunidade de apoiadores ao redor desse acervo.

A ideia funciona assim: quem apoia o projeto recebe um NFT como recompensa. Mas antes de você torcer o nariz para a palavra NFT, deixa eu explicar o que ele faz aqui — porque não tem nada a ver com o que apareceu nos noticiários em 2021.

Nesse projeto, o NFT funciona como uma chave de acesso digital.

Quem compartilha o projeto nas redes sociais recebe o NFT Silver, que dá acesso a imagens em altíssima resolução de 15 manuscritos históricos, acompanhadas de textos explicativos criados especialmente para o projeto.

Quem faz uma doação financeira para a Biblioteca recebe o NFT Gold, com acesso a 21 manuscritos. Simples assim.

Esses NFTs são o que o mundo tech chama de SBT(soulbound token), uma palavra complicada para dizer uma coisa simples: eles são seus para sempre, não podem ser vendidos nem transferidos para outra pessoa.

Não têm valor de mercado.

São só uma prova de que você apoiou o projeto e uma chave para acessar o conteúdo.

A rede usada é a Polygon, conhecida por ser eficiente e barata. Você pode ver com seus próprios olhos os NFTs já distribuídos acessando a coleção no OpenSea — até o momento, 419 carteiras diferentes já receberam seus tokens.

Como o piloto está avançando

O projeto começou no Japão, em fevereiro de 2023, justamente porque a NTT DATA é uma empresa japonesa e tinha a base de usuários e parceiros para um primeiro teste.

Em junho de 2024, o Vaticano anunciou oficialmente a expansão para a Itália e os organizadores deixam bem claro que o projeto ainda é experimental. Eles mesmos chamam de "piloto". O objetivo agora é aprender com esses dois países antes de crescer para outros mercados.

O CEO da NTT DATA Itália, Ludovico Diaz, resumiu bem a ambição do projeto: o objetivo é tornar o patrimônio cultural da Biblioteca acessível para pessoas de qualquer origem, cultura ou religião e depois expandir o uso dessa tecnologia para outros setores, como educação e entretenimento.

Por que isso importa além da tecnologia

O mais interessante aqui não é o NFT em si é o problema que ele resolve.

Antes desse projeto, para ver um manuscrito do século XIII da Biblioteca do Vaticano você precisava ir pessoalmente a Roma, ter credenciais acadêmicas e agendar visita com antecedência.

Agora, um estudante em qualquer cidade do Brasil por exemplo pode ver a mesma imagem, com o mesmo nível de detalhe, e entender o que está olhando graças aos textos explicativos.

E do ponto de vista da Biblioteca, o projeto cria algo que ela nunca teve: uma forma de engajar apoiadores do mundo inteiro e recompensar quem ajuda a divulgar o trabalho de preservação sem precisar vender nada, sem depender de patrocinador, sem propaganda.

Vale acompanhar nos próximos meses: a expansão do projeto para outros países, o desenvolvimento de experiências em realidade virtual para explorar o acervo de forma imersiva, e se outras grandes instituições culturais — museus, arquivos nacionais, bibliotecas públicas — vão adotar um modelo parecido.

Gutenberg inventou a prensa em 1450 — a máquina que permitiu imprimir livros pela primeira vez na história e colocar o conhecimento nas mãos de qualquer pessoa.

A Igreja foi uma das primeiras a usar essa tecnologia para espalhar a fé pelo mundo. Agora, séculos depois, ela está fazendo o mesmo com a blockchain. E eu fico feliz em ver que a Igreja não está parada — ela está, à sua maneira, aprendendo a falar com o tempo em que vivemos.

Johannes Gutenberg - Inventor da impressora

Links para explorar:
DigiVatLib — o acervo digital da Biblioteca, aberto e gratuito
AMLAD — a ferramenta de digitalização da NTT DATA
Coleção no OpenSea — os NFTs do projeto na blockchain
Comunicado oficial do Vaticano — anúncio da fase italiana (junho 2024)
Press release da NTT DATA — detalhes técnicos da parceria

Esta semana não temos o Giro Web3.

Este sábado é de silêncio. Menos barulho do mundo, mais espaço para o que importa. Um dia de espera e contemplação. Curta sua família, curta o silêncio, contemple a vida. Contemple a vida por quem nos deu a vida e toda a sua paixão, nosso Senhor Jesus Cristo.

Na semana que vem voltamos com o Giro Web3 no ritmo de sempre.

Até lá, e para quem celebra, uma Páscoa abençoada.

Ricardo Zago

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