Quem já tentou subir uma campanha de exchange, carteira ou token no Google Ads mirando o Brasil conhece a cena: o anúncio fica pronto, a página fica bonita, e a revisão reprova em poucas horas. Não é azar nem erro de configuração. O Brasil simplesmente não está na lista de países onde o Google aceita anúncio de corretora ou carteira de cripto.
Este texto organiza o que eu aprendi em anos de mídia paga e blockchain sobre como divulgar um projeto Web3 por aqui sem queimar verba e sem queimar a conta. A ordem importa: primeiro a regra, depois o canal, depois a medição.
Eu falo disso por experiência própria. Nas contas de Google Ads que eu gerencio, basta mencionar cripto no anúncio ou na página de destino para a reprovação chegar rápido, e já vi conta ser suspensa por isso. Conta de anúncio com histórico não se reconstrói da noite para o dia, então errar aqui custa bem mais do que a verba da campanha.
O que conta como publicidade cripto
Publicidade cripto é qualquer mídia paga de um negócio do ecossistema de ativos digitais: exchanges, carteiras, emissores de token, protocolos DeFi, plataformas de NFT, jogos em blockchain, tokenizadoras de ativos reais.
Só que divulgar um projeto Web3 vai muito além de comprar clique. Envolve conteúdo, comunidade, parcerias, imprensa e criadores. A mídia paga é uma camada desse plano, e no nosso mercado costuma ser a camada mais restrita. Quem trata anúncio como a estratégia inteira descobre isso do pior jeito.
A regra do Google, lida com olhos brasileiros
A política de criptomoedas do Google Ads separa os produtos em três grupos, e vale entender cada um antes de gastar o primeiro real.
- Liberado sem certificação: Negócios que não envolvem comprar, guardar ou trocar cripto. Entram aqui empresas que aceitam pagamento em cripto, hardware de mineração, serviços jurídicos, contábeis e de segurança, plataformas que usam blockchain na operação sem vender token, e material educativo, desde que não traga recomendação de investimento, sinais ou análise de tendência de preço.
- Liberado com licença local e certificação do Google: Exchanges, carteiras de software, carteiras de hardware e trusts de cripto. Só que isso vale apenas para os países listados pelo Google: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, União Europeia via MiCA, Suíça, Japão, Coreia do Sul, Argentina, Emirados e mais alguns. O Brasil não está na lista. Para quem mira o público brasileiro, uma exchange simplesmente não consegue anunciar no Google hoje, por mais regular que seja.
- Proibido em qualquer lugar: Pré-venda de token e ICO, protocolos de negociação DeFi, empréstimo cripto, pools de liquidez, carteiras não custodiais, dApps não regulados, sites que comparam corretoras ou fazem review com link de afiliado, sinais de trade e recomendação de investimento.
Dois detalhes operacionais ajudam. O Google avisa com pelo menos sete dias de antecedência antes de suspender uma conta por violação dessa política, o que dá tempo de corrigir. E desde junho de 2026 o pedido de certificação sai de dentro da própria conta do Google Ads, não mais pela central de ajuda.
Outra armadilha do dia a dia: a própria conta do Google Ads costuma pedir a verificação de serviços financeiros. Ela existe para o Brasil desde janeiro de 2023 e reconhece reguladores como Banco Central, CVM e Coaf. Só que é um processo separado da certificação de cripto. Passar nela não destrava anúncio de exchange ou carteira para o público brasileiro, porque o Brasil continua fora da lista de países aprovados na política de cripto. Muita gente gasta semanas juntando documento achando que esse é o caminho.
Com tokenização a história é mais cinzenta. A palavra em si costuma passar na revisão. Mas, dependendo de como o produto é apresentado, o Google pode enquadrar a campanha como serviço financeiro e bloquear, principalmente quando a página fala em rendimento, retorno ou oportunidade de investimento. Na minha leitura, tokenização apresentada como serviço de estruturação para empresas passa bem melhor do que tokenização apresentada como forma de ganhar dinheiro.
Por que a regulação do Banco Central muda o jogo
Até pouco tempo, o argumento do Google para deixar o Brasil fora da lista era a falta de um regime de licença claro. Isso mudou. As Resoluções BCB 519, 520 e 521, publicadas em novembro de 2025, criaram as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais e o processo de autorização para operar. A 520 entrou em vigor em fevereiro de 2026, e quem já operava tinha até o fim de outubro de 2026 para protocolar o pedido de autorização e seguir funcionando durante a análise.
Na prática, o Brasil passa a ter exatamente o tipo de registro que o Google usa como critério em outros países. Não há anúncio oficial de que o país vai entrar na lista, e eu não apostaria data. Mas a lógica aponta para lá, e quem estiver com a autorização em mãos vai poder pedir certificação no primeiro dia, enquanto o concorrente ainda corre atrás de papel.
Tem um efeito colateral que pouca gente percebeu. A Resolução 520 exige que a prestadora conheça o perfil do cliente, a familiaridade dele com o mercado e a tolerância a risco. Isso tem tudo a ver com marketing: o anúncio que promete ganho fácil para qualquer pessoa entra em choque com a obrigação de saber para quem você está vendendo.
E se o seu projeto é um token que se parece com investimento coletivo, a conversa nem começa no Google. Começa na CVM.
Onde o orçamento rende enquanto a porta do Google está fechada
Com a principal vitrine de busca restrita, o projeto brasileiro precisa ser mais criativo com o dinheiro.
- Mídia especializada: Banners e conteúdo patrocinado em portais e newsletters de cripto colocam a marca na frente de quem já lê sobre o assunto. O cuidado é com o texto: nada de retorno garantido, meta de preço ou comparação de rentabilidade. Descreva o que o produto faz e para quem serve.
- Criadores de conteúdo: Influenciadores com audiência qualificada em cripto ainda são um dos canais mais eficientes no Brasil. A regra de ouro é a publicidade identificada. O público percebe quando um criador empurra cinco tokens por mês, e a credibilidade dele vira a sua.
- Conteúdo próprio e busca orgânica: Aqui o Brasil tem uma vantagem. O que o Google bloqueia no anúncio, ele não bloqueia no orgânico. Um artigo bem feito sobre como funciona uma carteira, como declarar cripto no imposto de renda ou o que muda com a regulação do Banco Central ranqueia, traz tráfego qualificado e não depende de certificação. Para quem tem fôlego, SEO é o canal com melhor custo por usuário interessado nesse mercado.
- Anúncio do negócio que é permitido: Se a sua empresa presta serviço em torno de blockchain sem vender token, como consultoria, auditoria, software de compliance ou tokenização de ativos reais para empresas, ela cai no grupo liberado. Vale estruturar a comunicação para deixar isso claro na página de destino.
Lançamento de token: o calendário importa tanto quanto a verba
Lançamento é onde mais se queima dinheiro. Três modelos pedem planos diferentes.
Na venda direta, o projeto depende da própria audiência, então o trabalho de reconhecimento precisa começar semanas antes de abrir a venda. Lembrando que pré-venda de token não pode ser anunciada no Google em lugar nenhum, e no Brasil pode esbarrar na CVM.
Em launchpad, o projeto empresta parte da audiência da plataforma. A comunicação gira em torno de whitelist, eventos de comunidade e instruções claras de como participar.
Em listagem em exchange, quem dita o calendário é a exchange. Sobra menos espaço para ajustar data, e o esforço deve ir para preparar a comunidade antes.
Em todos os casos, o anúncio da fase de venda aponta só para páginas oficiais verificadas, e a divulgação pós-listagem fica longe de qualquer promessa de preço.
Como medir sem se enganar
Clique não diz quase nada em cripto. O que mostra interesse real é ação: carteira conectada, cadastro concluído, entrada na comunidade. Eu acompanharia três números desde o primeiro dia de campanha.
O custo por carteira conectada mostra quanto custa de verdade cada usuário interessado. A origem das entradas na comunidade revela qual canal traz gente engajada e qual traz só curioso. A taxa de conclusão de cadastro separa quem estava olhando de quem pretende usar.
A atribuição em Web3 é imperfeita por natureza, porque o usuário pula entre site, carteira, Discord e exchange. Por isso compare sinais diferentes em vez de confiar em um painel só. E coloque a revisão de política no calendário mensal, não só no checklist de lançamento. As regras estão mudando rápido, aqui e lá fora.
Os erros que eu mais vejo
Mirar o Brasil no Google com produto que exige certificação e descobrir isso depois da reprovação. Prometer rendimento ou preço no texto do anúncio. Mandar tráfego para uma página sem time identificado, sem auditoria e sem aviso de risco. Comprar alcance em canal cuja audiência não tem nada a ver com o produto, e ver impressão subir enquanto cadastro fica parado. E publicar post patrocinado de influenciador sem identificar como publicidade.
Para fechar
Anunciar projeto Web3 no Brasil em 2026 se resume a três movimentos: saber o que cada plataforma permite para o público brasileiro, escolher o canal pelo objetivo e medir ação em vez de clique.
E fica a pergunta para os próximos capítulos. Com as PSAVs autorizadas pelo Banco Central, a Resolução CVM 88 organizando as ofertas de tokens e o mercado amadurecendo, será que o Brasil não ganha, mais cedo ou mais tarde, um caminho próprio de certificação junto ao Google, como já aconteceu com Argentina, Canadá e Europa? Não há nada anunciado. Mas quem se organizar agora, com autorização, página séria e conteúdo que ranqueia, vai estar pronto no dia em que a porta abrir.
Se a sua dúvida é sobre a estrutura do projeto em si, como tokenizar um ativo real dentro das regras, é esse o trabalho que fazemos na Avalon.
Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento nem orientação jurídica. Políticas de plataformas e normas mudam com frequência; confirme o texto vigente antes de investir em mídia.